Segunda-feira, Julho 28, 2008

Testemunho do Herói... (Leucemia e Linfoma)


(Fotos: Colóquios e Solilóquios do Ser)

Testemunho

Luís Fernando Barroso Sentieiro, 17 anos, Linfoma Linfoblástico T, diagnosticado em Abril de 2007

A batalha entre um doente Hemato-Oncológico e a sua doença é algo demorado, que requer persistência, perseverança, força e um incrível espírito de luta. Todos os factores psicológicos influenciam e ter uma perspectiva negativa acerca da doença, e de nós próprios em nada ajudará no percurso do tratamento da mesma. Por outro lado, se pensarmos positivo e enfrentarmos todas as adversidades e obstáculos impostos, poderemos viver melhor o nosso dia-a-dia. Escrevo este testemunho como prova detalhada de todos os obstáculos pelos quais passei e, de certa forma, por aqueles que ainda poderão advir do tratamento, para que todos os doentes e familiares possam ter acesso à experiência e ter em atenção que, apesar da incerteza, existe sempre esperança e que devemos lutar e acima de tudo, acreditar.

A Descoberta da inexorável verdade

Após um percurso de estudo, no qual foram realizados vários exames, foi-me diagnosticado um Linfoma Linfoblástico T. O momento do diagnóstico foi a confirmação de algo que já temia desde o início do estudo. Não senti medo, horror, nem mesmo desespero e sim, coragem para enfrentar e aniquilar a doença que, sem mais nem menos, aparecia na minha vida. Foi neste momento crucial que me apercebi do quão insignificante e de que forma uma vida pode ser alterada de um extremo para o outro, sem que sequer se tenha tempo de pestanejar. As pessoas mais importantes nesta nova realidade da minha vida foram, efectivamente, a minha mãe, assim como a minha família, os médicos, os enfermeiros e os meus amigos, que de todas as formas foram os meus grandes “soldados” e “generais” nesta grande batalha.

1º Noite de internamento na UDN – Pós diagnóstico

A entrada na UDN (Unidade de Doentes Neutropénicos do HSJ) foi para mim a entrada na arena da batalha. Ali, eu sabia que iria enfrentar cara a cara o meu maior inimigo, o Linfoma. A coragem, a bravura e o positivismo foram fundamentalmente importantes para esta fase de passagem para o desconhecido, no entanto, não pude deixar de sofrer, não por mim ou pela doença, pois sabia que era algo no qual eu seria o mais afectado directamente, mas sim, pela forma como as pessoas mais chegadas reagiram. Não posso esquecer a primeira noite, onde chorei com a minha mãe, pelo seu sofrimento e pela sua angústia e porque sabia que a realidade era dura demais. A partir dessa noite, eu tinha a certeza que partia para um mar desconhecido, cheio de ondas, altos e baixios, tempestades e tempos de bons ventos e que apenas poderia vencer, se aguentasse bem o leme do barco. Foi a tarefa de manter o leme do barco no rumo certo que jurei essa mesma noite cumprir, nem que a minha vida disso dependesse, e que de facto dependia.

Biopsia Cirúrgica e seu significado

Após poucos dias de internamento na UDN, fui chamado a realizar a biopsia cirúrgica. Antes da operação, estava confiante de que tudo correria bem, mas as coisas não ocorreram assim. Durante a biopsia estive perto de ter uma paragem cardíaca onde poderia ter morrido. Foi nesta altura e após a biopsia que compreendi que a vida era demasiado efémera e que rapidamente se poderia perder. A sensação durante a complicação foi de medo e pânico, no entanto, sobrevivi ao primeiro grande teste que a doença me iria colocar. Compreendi na totalidade o sentido e significado da vida e da morte e a forma como devemos aproveitar todos os momentos, pois nunca sabemos o que o futuro nos reserva. “Da mesma forma como o futuro me trouxe uma doença grave, o futuro a resolverá através das minhas escolhas e da força, bem como, através do tratamento” – Este foi um dos meus pensamentos após a operação.

O 1º Internamento na UDN

Apesar de todas as adversidades do tratamento, sinto que a parte que realmente importava, ou seja a remissão da doença estava de facto a correr bem. Com o início do pré-tratamento, grande parte das massas tumorais foram reduzidas, eliminando os sinais da doença, mas não eliminando a sua presença. As notícias eram boas, mas o Dr. Príncipe, assim como o Dr. Jorge, meu médico assistente, mantiveram as suas reservas em relação a todo o processo que estava e ainda está longe de terminar. O tratamento causa muitas reacções adversas, que são obstáculos que devemos ultrapassar. No final do primeiro internamento, uma dor inespecífica apareceu nas minhas pernas, impossibilitando-me de andar durante cerca de 3 dias. Foi nesta altura que compreendi o quão doloroso poderia ser o tratamento. Os sentimentos durante todo o processo decorrido na UDN foram a confiança de quem está sempre pronto para a batalha, ainda que tenham havido adversidades. Também senti uma enorme raiva e revolta contra a doença, dentro de mim. Raiva devido ao facto de este “sacaninha” me ter roubado parte da melhor altura da minha vida, a minha adolescência e a impossibilidade de estar com os meus amigos nesta época. Após o final do internamento, veio a desejada alta, na qual voltaria para casa e voltaria a ver os meus amigos e colegas, bem como, todas as pessoas que me eram importantes. No entanto, não o poderia fazer sem estar constantemente protegido e em tratamento no Hospital de Dia.


O Hospital de Dia e os tratamentos em Ambulatório

Ainda que a fase de Ambulatório tenha sido muito má, não foi a pior. Nesta altura, sentia um enorme vazio por dentro e um permanente mal-estar devido ao tratamento. Havia pouca vontade de agir e cada pensamento, era mais demorado que todas as Eras pelas quais a espécie Humana passou. Tudo era vazio e o vazio preenchia-me. Todas as emoções eram confusas, por um lado sentia uma raiva característica e uma revolta, por outro lado, sentia-me impotente e incapaz de fazer o que quer que fosse para melhorar a minha situação.


A Fase de Intervalo e a redução das doses

Esta foi a melhor altura do tratamento, tudo decorria sem complicações e eu estava bem. Já não sentia o permanente mal-estar, nem mesmo instabilidade emocional. Foi uma época de calma e de estabilidade. Adoptei a visão mais optimista até então e acreditei que por momentos a etapa negra tinha acabado.

2º Fase de Ambulatório e intensificação

Esta foi uma época muito semelhante à do primeiro ambulatório, nessa altura encontrava-me numa fase avançada do tratamento e sabia que todas as reacções adversas voltariam. Inicialmente recomecei as aulas, o que foi algo vitalmente importante pois pude, durante algum tempo sentir-me realizado. No entanto, ao fim de algum tempo, comecei a sucumbir aos efeitos adversos e foi necessário não voltar a frequentar a escola até nova melhoria. A gastrite, as dores em todo o corpo, a infecção respiratória e a baixa de todos os valores hematológicos foram alguns dos problemas enfrentados. O mau estar permanente foi característico, sentia-me pouco ou nada realizado e a minha imagem representava os meus sentimentos. No hospital, vi e ouvi muitos doentes e a forma como reagiam na Sala de Tratamentos do Hospital de Dia, alguns deles em estado bem pior do que aquele em que me encontrava na altura. Compreendi que era apenas mais um em sofrimento como eles, no entanto, lutava contra a doença com todas as minhas forças.


O Internamento da Infecção Renal e o Início da Manutenção (última fase do tratamento)

O internamento no qual sofri por uma infecção renal foi a pior situação de todo o processo de tratamento vivido até agora. Nesta época, tudo correu mal e eu fui mais abaixo. Estava já habituado a lidar com o mal-estar de todo o processo de tratamento, mas este internamento ultrapassou, não só o meu mau estar, mas também me causou dores severas e cansaço. Não podia ter um sono reparador devido aos soluços constantes, não podia comer que logo a seguir vomitava, e sentia-me constantemente com dores em todo o lado. O tratamento para a infecção foi demorado e nesta altura tudo perdeu o sentido para mim. Foi uma época de enorme angústia e tristeza. Passei o Natal no Hospital com a minha família, os médicos, os enfermeiros e as auxiliares do serviço, aos quais agradeço o papel que desempenharam ao longo de todo o processo. O Ano Novo, apesar de ter sido uma época do internamento um pouco mais calma, continuava a ser em ambiente hospitalar e com enorme tristeza. Após a subida dos valores e o controlo da dor, saí para a alta e a 9 de Janeiro de 2008 completaria os meus 17 anos na última fase do tratamento. No dia 9 foi-me feita uma festa surpresa que nunca esquecerei, e na qual pude, de certa forma, comemorar o meu regresso ao activo. Ao fim de todo o sofrimento que caracterizou esta grande etapa da minha vida, sentia-me novamente feliz e realizado. Ao fim de 2 meses de manutenção, o cabelo recomeçou a nascer com um novo visual que rapidamente adoptei e gostei. Tudo avança de vento em popa, mas devemos ter em atenção que o tratamento ainda não acabou e que cada caso é um caso. Sugiro então a todos os doentes, que tenham Coragem, Esperança e Positivismo. Apenas através de uma perspectiva positiva poderão atingir um sucesso ainda maior, como eu actualmente vivo e com o pensamento sempre na frente da batalha contra o Linfoma!

Luís Fernando Barroso Sentieiro



Fui generosamente autorizada a divulgar aqui o Testemunho de um doente que sofre de Leucemia Aguda, mais especificamente de Linfoma, não é um doente qualquer - é o meu (nosso) Herói. Alguém que procurou, através da escrita, partilhar a sua experiência ao longo deste caminho que ainda prossegue repleto de incertezas, mas também de esperança e com muito sucesso até à presente data. Quer-se de forma singela, mas transbordante de convicção, apoiar todos os que partilham de algum modo do mesmo sofrimento e agradecer com este gesto as Pontes Entre Nós de Amizade e Solidariedade que se construíram e que permitem o encontro que nos Ilumina. Obrigada... por tudo, fundamentalmente por existirem na nossa vida e pelo que nela significam.

AMMedeiros



Domingo, Julho 27, 2008

O Jumento


Sou filha da Liberdade. Talvez mal sobrevivesse à pobreza, todavia, tenho por férrea convicção que não sobreviveria à falta de liberdade. Independentemente da forma, conteúdo, concordância ou discordância das ideias e com as ideias ali expressas, trata-se de um espaço de liberdade, que emana de algo concreto e definido que é um Estado de Direito, num contexto Democrático. O debate existe, quem discorda faça uso da sua liberdade com dignidade, só assim faz sentido... Discutam-se as questões, se assim se desejar, de outro modo, é tentar "calar" acorrentando quem faz pleno exercício da Liberdade, insultando covardemente a memória daqueles que por ela morreram...

Em nome da Liberdade, O Jumento conta com o meu incondicional apoio.


Quem a Tem

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pareça
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena, Poesia II




Sexta-feira, Julho 25, 2008

"19 días y 500 noches"


"19 días y 500 noches" - Trailer Documental Joaquín Sabina
Naturalmente, pelas minhas raízes transmontanas, raianas, em primeiro lugar, pelo estímulo que a influência paterna sempre exerceu sobre mim, de um modo ou de outro, em segundo lugar, tornando-me a mente sequiosa de uma escrita inteligente, condimentada pela ironia mordaz, imbuída de um ambiente de sentido crítico, sentida profundamente na alma da poesia, inesgotável originalidade e pela maravilhosa expressão da música!... Como não poderia deixar-me fascinar pela irreverente rebeldia e paixão de Sabina?... Há dias, num episódio mais ou menos decisivo... daqueles em que os sonhos tomam os primeiros esquiços na nossa realidade, num diálogo interessante e revelador, ocorreu a menção a Joaquín Sabina e... à memória tantas memórias! Uma viagem de regresso de um Natal lívido de neve que cobria a Espanha e Sabina pelo caminho... Um dos temas que o Herói gosta: "Princesa"... Essencialmente, a sagacidade, autenticidade, irreverência rebelde, acérrimo inconformismo, sensibilidade... que é também a minha procura...

AMMedeiros

Terça-feira, Julho 22, 2008

"Todo O Sentimento"


"Todo O Sentimento"
Verónica Sabino (Chico Buarque)






Preciso não dormir

Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

Chico Buarque


Sábado, Julho 19, 2008

Reflexão...



(Foto: Colóquios e Solilóquios do Ser)



"Nesta igualdade original do corpo e do espírito e nesta consciência ingénua de um e de outro - uma criança que acredita em tudo que vê, para quem tudo se renovou, que, cheio de uma fé e de uma confiança sem limites, gostaria de gritar a sua alegria ao esplendor inverosímil do mundo, e não saberia saudar de melhor modo a razão senão fazendo cabriolas diante dela... como se balbuciasse em sonho, ele tem algo a dizer sobre estes esplendores ocultos que lhe fizera, ai de nós, esquecer tantas coisas úteis e necessárias."


"só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objecto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles se deve enraizar robustamente num solo particular, a fim de se tornar um mundo para o outro."


LOU ANDREAS -SALOMÉ

Lou Salomé: alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até a uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou no seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos - e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de "raio de sol'.




Quarta-feira, Julho 16, 2008

As Sem-Razões do Amor

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade


Sexta-feira, Julho 11, 2008

A Importância de uma Lista...




"Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro."

(Hebraico, do Talmude)
Itzhak Stern, personagem do filme "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg




Em conversa com o Herói sobre os "Holocaustos" que surgem na vida, numa tentativa do que terá sido o maior esforço em encontrar sentido no sofrimento atroz e sobreviver... o próprio Holocausto Nazi...
Aprendo contigo, Herói o que não vivi...
Mas sei do profundo sentido que existe no sofrimento para se salvar uma vida, e talvez, também isso tenha aprendido contigo.

AMMedeiros



Quarta-feira, Julho 09, 2008

Maresia...

(Foto: Colóquios e Solilóquios do Ser)


Em cada reentrância das rochas... o mar!!!...
Invadia-me o pensamento, inebriava-me os sentidos e... envolvia-me e transportava-me até ti... este mar tão nosso... este (a)mar só nosso...

Pelo infinito que me anseia... pela fúria que me estimula... pela serenidade com que, por vezes, me chega e acaricia...
Pelo que me segreda ao ouvido...
Pelo fascínio nos perigos e tesouros que encerra...
Pelo enigma que sempre será este mar de te (a)mar!...

AMMedeiros






Segunda-feira, Julho 07, 2008

Opinião Pública

Tem Portugal uma opinião pública formada e informada?...



"O público compra opiniões do mesmo modo que compra a carne ou o leite, partindo do princípio de que custa menos fazer isso do que manter uma vaca. É verdade, mas é mais provável que o leite seja aguado.
"
Samuel Butler

"Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião."
Georg Lichtenberg


"Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado."
Oscar Wilde



"O fraco treme diante da opinião pública, o louco afronta-a, o sábio julga-a, o homem hábil dirige-a."
Jeanne Roland


Domingo, Julho 06, 2008

Indiferença...




A crescente indiferença ao próximo deveria causar revolta... e vergonha por nos denominarmos seres "humanos"...



Quinta-feira, Julho 03, 2008

Na Floresta do Alheamento



NA FLORESTA DO ALHEAMENTO

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... - rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada - tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas - de realidade que era, a ilusão - assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão - e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.