Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Solilóquio a dois

(Foto: Hélder Vasconcelos)

O Ser abandona-se frequentemente à ideia de que a sua existência nada mais é o do que uma súmula de acontecimentos, momentos, vivências, pessoas e realizações, no fundo daquilo que realmente fizemos e nos foi dado a fazer nas diversas etapas do desenvolvimento no contexto em que se desenrolou. Todavia, a existência percorre um trilho e em cada trajectória se encontram perdas, omissões, escolhas, renúncias, sonhos e desejos não cumpridos, hesitações, projectos frustrados, medos que paralisam, de abandonos sofridos e outros que infligimos e, compõe-se também a existência do Ser das infinitas possibilidades que ficaram em trajectórias lateriais. Enquanto persona, talvez o Ser, em toda a sua existência, transcenda aquilo que foi, sendo o que não foi, no sentido materializavel e em todos os outros sentidos, o sentido mais difuso, por outro lado ainda, o que podería ter sido bem como o que ainda mantém em si por ser. A essência ressalta com a existência. E há tantas essências dentro de um só Ser.

AMMedeiros



Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

Sensibilidade e Bom Senso

Mulher presa na Prisão Central de Katsina (Nigeria), condenada à morte por abortar. De acordo com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, as mulheres têm dereito a decidir o número de filhos e o espaçamento dos nascimentos.
© AI (Aministia Internacional)
http://www.amnistiainternacional.org


Numa altura em que a data se aproxima, é na inversa proporção que as opiniões proliferam. Entre o SIM e o NÃO, a discussão assume, por vezes, características sórdidas e de mau gosto, já para não falar nos argumentos.
Neste caloroso tumulto de informação, desinformação, acusações, comparações e opiniões, pouco tenho lido que sejam reflexões bem sustentadas que levem em consideração os vários aspectos de uma questão, que requer sensibilidade porque é de vida que se fala, da vida num contexto legal, biológico, social, político-económico, psicológico e até mesmo cultural, mas fundamentalmente requer de per si bom senso. Todavia, hoje deparo-me finalmente com um texto consistente, coerente e que remete para uma boa reflexão. Leio e em cada linha impera não só a informação e a desmistificação, mas acima de tudo o respeito que a vida humana nos merece até no trato e na forma como a ela nos referimos quando escrevemos e expressamos opiniões divergentes.

AMMedeiros


«Numa questão tão delicada, com a vida e a morte em jogo, não se pretende que haja vencedores nem vencidos, mas um diálogo argumentado, para lá da paixão e mesmo da simples compaixão. Ficam alguns pontos para reflectir.

1.
O aborto é objectivamente um mal moral grave. Aliás, ninguém é a favor do aborto em si, pois é sempre um drama.

2.
A vida é um bem fundamental, mas não é um bem absoluto e incondicionado. Se o fosse, como justificar, por exemplo, o martírio voluntário e a morte em legítima defesa?

3.
Para o aparecimento de um novo ser humano, não há "o instante" da fecundação, que é processual e demora várias horas.

A gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns "marcos" que não devem ser ignorados. É precisamente o seu conhecimento que leva à distinção entre vida, vida humana e pessoa humana. O blastocisto, por exemplo, é humano, vida e vida humana, mas não um indivíduo humano e, muito menos, uma pessoa humana.

Se entre a fecundação e o início da nidação (sete dias), pode haver a possibilidade de gémeos monozigóticos (verdadeiros), é porque não temos ainda um indivíduo constituído.

Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído. De qualquer modo, não se pode chamar homicídio, sem mais, à interrupção da gravidez levada a cabo nesse período.

4.
Sendo o aborto objectivamente um mal, deve fazer-se o possível para evitá-lo. Tudo começa pela educação e formação. Impõe-se uma educação sexual aberta e responsável para todos, que, não ficando reduzida aos aspectos biológicos e técnicos, tem de implicá-los, fazendo parte dela o esclarecimento, sem tabus, quanto à contracepção.

5.
O aborto é uma realidade social que nem a sociedade nem o Estado podem ignorar. Como deve então posicionar-se o Estado frente a essa realidade: legalizando, liberalizando, penalizando?

6.
Não sem razão, pensam muitos (eu também) que, se fosse cumprida, a actual lei sobre a interrupção da gravidez, permitida nos casos de perigo de morte ou grave e duradoura lesão para a mãe, de nascituro incurável com doença grave ou malformação congénita e de crime contra a liberdade e autonomia sexual (vulgo, violação), seria suficiente.

7.
De qualquer forma, vai haver um referendo. O que se pergunta é se se é a favor da despenalização do aborto até às dez semanas, em estabelecimentos devidamente autorizados, por opção da mulher.

Por despenalização entende-se que, a partir do momento em que não há uma pena, a justiça deixa de perseguir a mulher que aborta e já não será acusada em tribunal.

Aparentemente, é simples. Mas compreende-se a perplexidade do cidadão, que, por um lado, é a favor da despenalização - despenalizar não é aprovar e quem é que quer ver a mulher condenada em tribunal? -, e, por outro, sente o choque de consciência por estar a decidir sobre a vida, realidade que não deveria ser objecto de referendo. O mal-estar deriva da colisão dos planos jurídico e moral.

8.
Impõe-se ser sensível àquele "por opção da mulher" tal como consta na pergunta do referendo, pois há aí o perigo de precipitações e arbitrariedades. Por isso, no caso de o "sim" ganhar, espera-se e exige-se do Estado que dê um sinal de estar a favor da vida.

Pense-se no exemplo da lei alemã, que determina que a mulher, sem prejuízo da sua autonomia, deve passar por um "centro de aconselhamento" (Beratungsstelle) reconhecido. Trata-se de dialogar razões, pesar consequências, perspectivar alternativas. A mulher precisará de um comprovativo desse centro e entre o último encontro de aconselhamento e a interrupção da gravidez tem de mediar o intervalo de pelo menos três dias. As custas do aborto ficam normalmente a cargo da própria.

O penalista Jorge Figueiredo Dias também escreveu, num contexto mais amplo: "O Estado (...) não pode eximir-se à obrigação de não abandonar as grávidas que pensem em interromper a gravidez à sua própria sorte e à sua decisão solitária (porventura na maioria dos casos pouco informada); antes deve assegurar-lhes as melhores condições possíveis de esclarecimento, de auxílio e de solidariedade com a situação de conflito em que se encontrem. Sendo de anotar neste contexto a possibilidade de vir a ser considerada inconstitucional a omissão do legislador ordinário de proporcionar às grávidas em crise ou em dificuldades meios que as possam desincentivar de levar a cabo a interrupção".»

Prof. Anselmo Borges

Link: Diário de Notícias



Domingo, Janeiro 21, 2007

SIM

Sábado, Janeiro 20, 2007

Dos Direitos Que Se Não Fazem Cumprir



Declaração dos Direitos da Criança

Proclamada pela Resolução da Assembleia Geral 1386 (XIV), de 20 de Novembro de 1959.


Preâmbulo

Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, a sua fé nos direitos fundamentais, na dignidade do homem e no valor da pessoa humana e que resolveram favorecer o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa liberdade mais ampla;

Considerando que as Nações Unidas, na Declaração dos Direitos do Homem, proclamaram que todos gozam dos direitos e liberdades nela estabelecidas, sem discriminação alguma, de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, origem nacional ou social, fortuna ou outra situação;

Considerando que a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade uma protecção e cuidados especiais, nomeadamente de protecção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento;

Considerando que a necessidade de tal protecção foi proclamada na Declaração de Genebra dos Direitos da Criança de 1924 e reconhecida na Declaração Universal dos Direitos do Homem e nos estatutos de organismos especializados e organizações internacionais preocupadas com o bem-estar das crianças;

Considerando que a Humanidade deve à criança o melhor que tem para dar,

A Assembleia Geral

Proclama esta Declaração dos Direitos da Criança com vista a uma infância feliz e ao gozo, para bem da criança e da sociedade, dos direitos e liberdades aqui estabelecidos e com vista a chamar a atenção dos pais, enquanto homens e mulheres, das organizações voluntárias, autoridades locais e Governos nacionais, para o reconhecimento dos direitos e para a necessidade de se empenharem na respectiva aplicação através de medidas legislativas ou outras progressivamente tomadas de acordo com os seguintes princípios:

Princípio 1.º

A criança gozará dos direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão reconhecidos a todas as crianças sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra da criança, ou da sua família, da sua origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou de qualquer outra situação.

Princípio 2.º

A criança gozará de uma protecção especial e beneficiará de oportunidades e serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

Princípio 3.º

A criança tem direito desde o nascimento a um nome e a uma nacionalidade.

Princípio 4.º

A criança deve beneficiar da segurança social. Tem direito a crescer e a desenvolver-se com boa saúde; para este fim, deverão proporcionar-se quer à criança quer à sua mãe cuidados especiais, designadamente, tratamento pré e pós-natal. A criança tem direito a uma adequada alimentação, habitação, recreio e cuidados médicos.

Princípio 5.º

A criança mental e físicamente deficiente ou que sofra de alguma diminuição social, deve beneficiar de tratamento, da educação e dos cuidados especiais requeridos pela sua particular condição.

Princípio 6.º

A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de afecto e segurança moral e material; salvo em circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não deve ser separada da sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas têm o dever de cuidar especialmente das crianças sem família e das que careçam de meios de subsistência. Para a manutenção dos filhos de famílias numerosas é conveniente a atribuição de subsídios estatais ou outra assistência.

Princípio 7.º

A criança tem direito à educação, que deve ser gratuita e obrigatória, pelo menos nos graus elementares. Deve ser-lhe ministrada uma educação que promova a sua cultura e lhe permita, em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as suas aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um membro útil à sociedade.
O interesse superior da criança deve ser o princípio directivo de quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que cabe, em primeiro lugar, aos seus pais.
A criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a actividades recreativas, que devem ser orientados para os mesmos objectivos da educação; a sociedade e as autoridades públicas deverão esforçar-se por promover o gozo destes direitos.

Princípio 8.º

A criança deve, em todas as circunstâncias, ser das primeiras a beneficiar de protecção e socorro.

Princípio 9.º

A criança deve ser protegida contra todas as formas de abandono, crueldade e exploração, e não deverá ser objecto de qualquer tipo de tráfico. A criança não deverá ser admitida ao emprego antes de uma idade mínima adequada, e em caso algum será permitido que se dedique a uma ocupação ou emprego que possa prejudicar a sua saúde e impedir o seu desenvolvimento físico, mental e moral.

Princípio 10.º

A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universal, e com plena consciência de que deve devotar as suas energias e aptidões ao serviço dos seus semelhantes.


Adenda: A Convenção Sobre Os Direitos da Criança



Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Da Condenação à Morte à Condenação à Vida

A condenação à morte é uma temática (por assim dizer) que continua a estar na ordem dos dias (lamentavelmente). Longe daqui, há doutos sítios onde ainda se discute e repensam formas de abolir definitivamente esta forma de "aplicação da lei", e não menos longe tal temática não se discute nesses mesmos termos e aplica-se em definitivo. Por outro lado, antes da condenação à morte incorre-se na condenação à vida e assim ditamos os desígnios do ser humano, pela condenação às parcas escolhas dentro dos campos da não-escolha.
Sem fundamentalismos e extremismos de qualquer ordem, no que toca à morte e à vida do ser humano, continuo a constatar excessos de opiniões assentes em estratégias de manipulação de opiniões de massas, pelo recurso a estratégias e meios que se encontram mais perto do marketing do que de uma aberta e profunda reflexão. Uma reflexão que deverá começar num silêncio que apenas permita ouvir os pensamentos que só a nós nos permitimos ouvir, uma reflexão que parte da consciência de cada um, do exercício de ouvir e, já agora, escutar o outro. Fundamentalmente, de um exercício tão simples e simultâneamente tão complexo para o ser humano como aquele que permite que nos tentemos colocar no lugar do outro, antes de proferir qualquer opinião ou quiçá mesmo qualquer condenação.
A humanidade continua a condenar-se ao invés de ser responsavelmente livre e humana.

AMMedeiros



"(...) Compreendia, compreendia o que eu queria dizer? Toda a gente era privilegiada. Só havia privilegiados. Também os outros seriam um dia condenados."

Albert Camus in O Estrangeiro (1949)



Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

Criation Hands


Plantar uma árvore.

Ter um filho.

Escrever um livro.

O que lhe falta fazer ou o que acrescentaria...?



Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Sobre tudo e fundamentalmente sobre nada


"O importante talvez não seja que se minta, mas a verdade que deixa de se contar quando se mente.
No fundo, nós precisamos de mentir porque, às vezes, precisamos de não ter consciência de quem somos."

Eduardo Sá


Domingo, Janeiro 14, 2007

Narcolepsia...


Narcolepsia:
Ataques irresistíveis de sono reparador que ocorrem diariamente durante pelo menos três meses...

Acorda, Portugal!




Sábado, Janeiro 13, 2007

Da Suprema Importância da Filosofia


Partindo da minha perspectiva holística à minha formação, passando pelas questões da existência ao sentido prático do dia-a-dia, a filosofia sempre me fez sentido e me foi útil.
AMMedeiros

"O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio."


Karl Jaspers, in 'Iniciação Filosófica'



Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

Uma Análise do Ser pelo Poeta


Abordou como nenhum outro o ser e a existência, dos seus heterónimos até ele próprio Pessoa nos turbilhões da escr
ita e da poesia.


Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Da Mudança Desejada

O ser humano é por vezes acometido ao longo da sua existência, por uma férrea resistência à mudança cuja necessidade se configura no horizonte, paradoxalmente sofre tantas outras vezes de uma extrema sofreguidão da mesma mudança.
Talvez no primeiro caso a mudança não seja sentida como necessária, mas antes no oposto, absolutamente desnecessária e até nociva, porventura a algum comodismo e conforto estável que parece transmitir segurança. No segundo caso, poderia vir a ser o tédio da rotina, a trivialidade do "tudo sempre igual", o vazio que se instala, a sofreguidão de romper o ciclo. Talvez seja assim muitas vezes...
Todavia, não foi assim que o "Burlesco" se veio a chamar "Colóquios e Solilóquios do Ser". Digamos antes que existiria uma limitação à abrangência de ser das temáticas por aqui publicadas, uma certa insatisfação permanente, que num crescendum gerou uma mudança desejada.
Com agrado pelas conversas que, pontualmente neste recanto ocorrem, com o mesmo prazer nos monólogos que se ousam ter, pelo submergir nas questões que o ser vivencia nos mais diversos contextos no limite ao desafio de pensar e pensar-se no mundo, eis que ocorre a mudança!
Sendo através de colóquios ou de solilóquios, é com o calor de sempre que aqui vos encontro em fugazes visitas ou em pausadas descobertas, com outras formas de ser, pensar e expressar-se! Sem perder o sentido do burlesco, aqui estarei!
Redescobrir é a palavra da mudança desejada.

AMMedeiros


Terça-feira, Janeiro 09, 2007

16 ANOS DE SER!


09-01-1991
SONHEI-TE.
16 ANOS DE SER... EM MIM.

"Sonhei-te.
No meu sonho já existias.
Tinha o céu no meu ventre!
A Drª. Filomena Porfírio dizia que ainda não querias. Voltei e ela insistiu. Tu darias os teus sinais em simbiose com a natureza. Mas eu temia que já quisesses.
O jantar teve o sabor da ansiedade e da tensão física.
A noite foi tão longa como as voltas que dei em mil posições à procura da mais confortável, a dor insinuava-se cada vez com mais intensidade.
Pela manhã do dia seguinte, nove de Janeiro, tinha apenas a voz da Drª. Porfírio e suas precisas indicações no meu ouvido, e procurava exasperadamente a coerência das mesmas naquilo que sentia, mas não havia nem sequer coincidência...
Tomou-se a decisão.
A caminho do hospital ainda pensava que era falso alarme: "Estás apenas a querer afirmar-te!..."
A enfermeira Glória foi peremptória: "Ele vem a caminho!" e "Parabéns! Fez o mais importante em casa, fez o TPC e tem nota máxima!", estas palavras não me tranquilizaram, fiquei assustada...
A dor instalou-se.
Fazia intervalos nos quais aproveitava para respirar, mas eram cada vez mais curtos! Ao meu lado, uma jovem impávida e serena, e eu não compreendia como poderia estar ela tão serena e eu já a trepar pelos ferros da cama em direcção às paredes!
Gritei!
Veio a equipa completa. A enfermeira-chefe dizia-me numa voz suave: "Calma, ainda não, vamos mudar de quarto" e eu mais uma vez não compreendia... Mudar de quarto?! Mas será que aqui ninguém tem pressa? Ninguém se despacha? Ele quer nascer!
Trazia ainda a minha camisa branca de algodão tão larga que assentava-me como uma túnica! Tinha uma série de motivos alusivos às vindimas com personagens vestidas em trajes a rigor e umas cores lindíssimas, na verdade parecia um vestidinho.
Vieram todos os médicos estagiários, depois de ter concordado em autorizar a sua presença, assistir ao momento em que querias nascer e apresentar-te aos presentes. Subitamente, gerou-se à minha volta uma ambiência de cumplicidade, protecção e emoção.
A enfermeira-chefe sempre naquela sua voz suave conduzia e explicava-me tudo a mim e aos médicos.
Um arrojado clamor de vida e TU nasceste!
O médico supervionava tudo de longe e veio orgulhosamente ver o menino, repito o menino que ele queria ver nascer.
Colocaram-te no meu regaço já depois do teu primeiro banho e com o teu Baby Grow branquinho vestido e eu chorei, chorei daquela maneira que todas as mães choram nesse inefável momento. À minha volta sorriam, davam-me suaves beijos e afagos no cabelo, todos cumprimentavam a jovem mamã e o bébé de olhinhos em forma de amêndoa, já tão abertos e curiosos! Depois o médico levou-te com ele até que aquele momento terminasse para que eu pudesse descansar.
Faltava um pouco mais, a enfermeira-chefe dizia que iria custar, mas que depois daquela forma tão bem comportada de colaborar no teu nascimento, tudo iria correr bem. Ela tinha, como sempre, razão e custou efectivamente um pouco.
O médico voltou contigo e levava-nos aos dois na maca até ao quarto, viagem que durou o tempo das mil paragens que aconteceram para te ver!
Estava com uma fome voraz, tenho que admitir! Estava a chegar a hora do almoço e eu ainda não havia comido nada naquele dia... Sentia-me exausta, mas rejubilava e a comoção era infinita! Tinha muito apetite, confesso.
09-01-1991, às 12:20h. 3,400 kg e 49 cm.
"A mamã está ainda mais bonita, magra e exaurida", "Que lindos olhos nipónicos e que pele tão acetinada tem este pilas" dizia o médico orgulhoso do género masculino.
Eu sonhei-te.
Já estavas ali. Agora podia ver-te!
E não parava de te contemplar... dia e noite. Tinhas excedido o meu sonho!...

16 ANOS hoje.
Eu e tu, meu jovem Herói! Parabéns!
Sei que gostarias que o teu pai e os teus dois avós não tivessem já partido e todos pudessem estar aqui contigo, eu sei, eu também gostaria...
Sei contar-te como foi a aventura de nasceres. Sei, talvez, descrever-te o que senti neste tom lamechas, dirás tu do alto do saber dos teus 16 anos.
Mas hoje não há palavras que cheguem para te dizer o que sinto...
Na verdade, não há palavras que abarquem a profundidade do que significas.
És um menino maravilhoso. Sempre fôste.
Não podia sentir-me mais feliz por existires e por seres como és.

Parabéns!
Obrigada por existires.

Um sentimento infinito numa palavra,
AMO-TE."

AMMedeiros


Segunda-feira, Janeiro 08, 2007


"...if time is in its essence a separation and as it were a perpetual splitting up of the self in relation to itself, hope on the contrary aims at reunion, at recollection, at reconciliation: in that way, and in that way alone, it might be called a memory of the future."

Gabriel Marcel

"Devemos encarar com tolerância todas as loucuras, fracassos e vícios dos outros, sabendo que apenas encaramos as nossas próprias loucuras, fracassos e vícios. Pois eles são os fracassos da humanidade à qual também pertencemos e, assim, temos os mesmos fracassos em nós. Não nos devemos indignar com os outros por vícios, apenas por não aparecerem em nós naquele momento."

Arthur Schopenhauer in Parerga and Paralipomena, Vol II, p. 305, Cap. 11, § 156a.


Yalom, I. (2006). A cura de Schopenhauer. Parede: Saída de Emergência.
Yalom, I. (1980). Existential psychoptherapy. Basic Books.

Domingo, Janeiro 07, 2007

?


Interrogação. Curiosidade. Dúvida. Porquê. Questão. Vontade de saber.

Impelimo-nos pela interrogação?

Até mesmo pela interrogação da interrogação?

Parafraseando as palavras de um amigo:
A questão é que o que importa não é a resposta, mas a pergunta que se faz…

A dúvida persiste...?

Sábado, Janeiro 06, 2007

Os Reis Magos...


"Boas Festas me darão os Reis!"



... diz-se que seguiram a Estrela do Oriente, os três Reis Magos Baltazar (Rei da África), Gaspar (Rei da Pérsia) e Melchior (Rei da Arábia), traziam ouro, incenso e mirra para oferecer ao menino Jesus, Rei da Judeia...


Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

A Metamorfose


A cada novo ano que se inicia renovam-se desejos, sonhos, projectos, fazem-se promessas de abandono de alguns hábitos e de aquisição de outros, talvez como se de uma metamorfose se tratasse, como se se quisesse fazer "morrer" uma parte para fazer renascer essa parte de nós numa nova forma, numa nova vontade que pretende materializar muitas vontades adiadas.
Este ritual de início de ano novo recordou-me um livro há muito tempo lido e que, pelas mãos de um adolescente (nas suas metamorfoses me brindou com a sua metáfora) em psicoterapia me recolocou nas mãos um livro que submerge na metamorfose de um homem...
Sem dúvida, valeu a pena reler esta obra de Franz Kafka.

Porque todos necessitamos de algumas metamorfoses deixo aqui a sugestão de leitura e o desafio à metamorfose...

AMMedeiros

"(...) Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Estava deitado de costas, umas costas tão duras como uma carapaça, e, ao levantar um pouco a cabeça, viu o seu ventre acastanhado, inchado e arredondado em anéis mais rígidos, sobre o qual o cobertor, quase a escorregar, difilmente se mantinha. As suas numerosas patas, lamentavelmente raquíticas, comparadas com a sua corpulência, remexiam-se desesperadamente diante dos seus olhos.
«O que me aconteceu?» (...)"



Kafka, F. (2000). A metamorfose. Lisboa: Guimarães Editores.



Reflexão em Tom de Pergunta...


"Quais são as tuas palavras essenciais?
As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações.
As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem.
As que talvez ignores por nunca as teres pensado.
As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha."


Virgílio Ferreira


Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Feliz 2007!...

Recém chegada de uma saudosa ausência da blogosfera, inicio o primeiro post deste ano com os votos de que todos tenham passado umas excelentes festas e que, este novo ano seja aquilo que dele quisermos com convicção fazer.

Para todos os amigos que neste recanto me visitam desejo que 2007 seja um ano de PAZ, vivido intensamente com SAÚDE, transbordante de ALEGRIA DE VIVER, em cada dia não falte uma grande dose de AMOR, TOLERÂNCIA E SOLIDARIEDADE, seja PRÓSPERO e todos consigamos criar as oportunidades de concretização dos SONHOS que sonhámos, e já agora se me permitem, nunca falte o Sentido do Burlesco para nos fazer esboçar um sorriso!...

Um beijo

AMMedeiros